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04/09/2009

Carcinicultura: Desastre Sócio-Ambiental No Ecossistema Manguezal Do Nordeste Brasileiro


O Relatório do Deputado Federal João Alfredo (relator do GT-Carcinicultura) para a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara Federal, caracterizou danos sócio-ambientais de elevada magnitude no ecossistema manguezal do nordeste brasileiro. Consta de uma abordagem regional da produção de camarão, diagnósticos específicos, denúncias das comunidades tradicionais, relatórios técnicos e os resultados de 11 audiências públicas. Os impactos ambientais foram amplamente caracterizados, definidas as ações integradas e participativas dos órgãos de gestão (com as instituições governamentais e entidades da sociedade civil envolvidas) e enumerados os aspectos a serem considerados na revisão das Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e Conselhos e Órgãos Estaduais de Meio Ambiente.

Constatou-se que os viveiros de camarão promoveram: i) desmatamento do manguezal, da mata ciliar o do carnaubal; ii) extinção de setores de apicum; iii) soterramento de gamboas e canais de maré; iv) bloqueio do fluxo das marés; v) contaminação da água por efluentes dos viveiros e das fazendas de larva e pós-larva; vi) salinização do aqüífero; vii) impermeabilização do solo associado ao ecossistema manguezal, ao carnaubal e á mata ciliar; viii) erosão dos taludes, dos diques e dos canais de abastecimento e de deságüe; ix) ausência de bacias de sedimentação; x) fuga de camarão exótico para ambientes fluviais e fluviomarinhos; xi) redução e extinção de habitates de numerosas espécies; xii) extinção de áreas de mariscagem, pesca e captura de caranguejos; xiii) disseminação de doenças (crustáceos); xiv) expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho; xv) dificultou e/ou impediu acesso ao estuário e ao manguezal; xvi) exclusão das comunidades tradicionais no planejamento participativo; xvii) doenças respiratórias e óbitos com a utilização do metabissulfito; xviii) pressão para compra de terras; xvii) desconhecimento do número exato de fazendas de camarão; xix) inexistência de manejo; xx) não definição dos impactos cumulativos e xxi) biodiversidade ameaçada.

No Estado do Ceará, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA-Brasil) realizou o mais completo estudo sobre os impactos ambientais da carcinicultura. As 245 fazendas de camarão (novembro de 2005), com uma área total de 6.069,97 hectares, foram visitadas para a definição de aproximadamente 39 indicadores diretos de impactos ambientais.

Verificou-se que, do total das fazendas licenciadas pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (SEMACE), 84,1% causaram impactos diretamente ao ecossistema manguezal (fauna e flora do mangue, apicum e salgado); 25,3% promoveram o desmatamento do carnaubal e 13,9% ocuparam áreas antes destinadas a outros cultivos agrícolas de subsistência. No rio Jaguaribe, 44,2% das piscinas de camarão foram construídas interferindo diretamente no ecossistema manguezal e 63,6% promoveram danos de elevada magnitude a um dos mais importantes carnaubais de nossas bacias hidrográficas. Dados mais assustadores foram definidos nos estuários dos rios Pirangi, Acaraú, Coreaú e Timonha, com 89,5%, 96,9%, 90,9% e 100% respectivamente, com as atividades de criação de camarão dentro do ecossistema manguezal (nos rios Acaraú, Coreaú e Timonha, 78,1%, 72,7% e 81,8% respectivamente, provocaram desmatamentos da vegetação de mangue). A maioria dos empreendimentos gera sérios riscos de disseminação de espécies exóticas, pois não dispõe de mecanismos de segurança eficientes para evitar a invasão de uma espécie de camarão (Litopenaeus vannamei) estranha e nociva aos manguezais do Brasil. Definiu-se que somente 21,6% dispunham de licença correspondente a sua fase de implantação e dentro do prazo de validade.

Nas fazendas abandonadas, os diques continuam como nas que estão em operação, inviabilizando as reações ambientais que dão sustentação à diversidade biológica do manguezal e dos demais ecossistemas das bacias hidrográficas. Verificou-se também que 77% das fazendas de camarão não contam com bacias de sedimentação (lançam seus efluentes na água dos rios, lagoas e estuários), o que vem a confirmar os elevados danos ambientais já definidos por pesquisadores das Universidades, representantes de Comitês de Bacias, ambientalistas e comunidades tradicionais. Com tais níveis de insustentabilidade, 67,9% dos criatórios foram acometidos por enfermidades (63% no litoral leste e 90% no oeste), com a morte dos camarões e a provável contaminação de outros organismos nativos.

Liberar investimentos sob a alegativa de que vai gerar empregos, considerada a mais forte argumentação dos empreendedores, não será mais justificativa, pois foi definido que o índice médio de empregos diretos observado na totalidade das fazendas é até 3,20 vezes menor do que o divulgado pela Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). No rio Acaraú, por exemplo, foi definido um índice 6,3 vezes menor do que o propalado pelos carcinicultores. Quando a SEMACE libera a construção de fazendas de camarão dentro do ecossistema manguezal (apicum e salgado) e nas demais unidades de preservação permanente (áreas úmidas, mata ciliar e carnaubal), através de pareceres técnicos que orientam o Conselho Estadual de Meio Ambiente (COEMA), está cometendo um grave dano sócio-ambiental.

A Resolução do COEMA N° 02/2002, que trata da carcinicultura no Ceará, deverá ser completamente revista e os licenciamentos suspensos. Estudos desenvolvidos pelo Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), determinaram que o apicum é regido pelos processos ecodinâmicos e geoambientais que se desenvolvem no ecossistema manguezal. Antigos setores de apicum agora se encontram completamente cobertos pela vegetação de mangue. Contraria frontalmente o que explicita tal Resolução “ecossistema de estágio sucessional tanto do manguezal como do salgado, onde predomina solo arenoso e relevo elevado que impede a cobertura dos solos pelas marés, sendo colonizado por espécies vegetais de caatinga e/ou mata de tabuleiro”. Mais ainda, estudos evolutivos da cobertura vegetal em salinas abandonadas demonstraram alta capacidade de regeneração por vegetação de mangue. Verificou-se que bastou ser restabelecida a entrada das marés (rompimento dos diques abandonados), desencadeando as trocas de matéria e energia, a ciclagem de nutrientes e mudanças nos valores de salinidade da cobertura sedimentar, para o início da revegetação e a entrada da fauna. A Resolução do COEMA mais uma vez trata equivocadamente a dinâmica ambiental do ecossistema manguezal, quando definiu salinas abandonadas como “áreas antropizadas que geram ecossistemas apresentando hipersalinidade residual de solo, e conseqüentemente baixa capacidade de regeneração natural por vegetação de mangue”.

O relatório do GT-Carcinicultura da Câmara Federal definiu as bases para ações efetivas de preservação do ecossistema manguezal, de melhoria da qualidade de vida das comunidades tradicionais e da retomada da biodiversidade: i) rever a legislação explicitando o apicum e o salgado como unidades geoambientais e ecodinâmicas pertencentes ao ecossistema manguezal e portanto de preservação permanente; ii) exigir para a implantação das atividades de produção de camarão em cativeiro a delimitação das Terras da União, dos terrenos de marinha e seus acrescidos, a demarcação de terras das comunidades nativas e o reconhecimento das posses legítimas mansas e pacíficas das comunidades tradicionais; iii) regulamentar a implantação de fazendas de camarão em unidades de conservação e em terra indígenas; iv) definir uma zona de distanciamento mínimo das fazendas de camarão dos assentamentos humanos, resguardando as áreas de atividades tradicionais, de drenagem superficial vinculada ao uso tradicional e às demais atividades de subsistência (pesca, mariscagem, agricultura e usufruto dos recursos naturais); v) delimitar os sistemas de produção (intensivo e extensivo) a partir do potencial sustentável de suporte dos ecossistemas envolvidos e da efetiva disponibilidade de água, assegurando a continuidade das atividades tradicionais de pescadores, marisqueiras, índios, ribeirinhos e quilombolas vinculadas à pesca, à mariscagem, à agricultura e ao usufruto dos recursos naturais; vi) fixar índices máximos (biológicos, químicos e físicos) para o lançamento dos efluentes das atividades de produção e beneficiamento do camarão em cativeiro; vii) determinar que sejam emitidas licenças somente a partir de efetivas ações de uso e manejo adequados de implementos e substâncias químicas potencialmente danosas à saúde humana e da qualidade dos sistemas ambientais envolvidos, na produção e industrialização do camarão; viii) determinar que licenciamentos e financiamentos sejam feitos de acordo com a definição dos impactos cumulativos, do estado de fragmentação dos ecossistemas envolvidos e a disponibilidade de água a partir de projeções de uso a curto, médio e longo prazos; ix) determinar que licenciamentos e financiamentos sejam feitos a partir de planos e programas (com dotação orçamentária) de recuperação de áreas degradadas com o abandono da atividade de produção de camarão em cativeiro; x) determinar que licenciamentos e financiamentos estejam vinculados à efetiva instalação de barreiras fitossanitárias para a produção, importação e exportação dos produtos associados à carcinicultura e; xi) determinar que licenciamentos e financiamentos sejam realizados a partir dos projetos que evidenciem programas de controle e manejo na introdução/invasão de espécies exóticas.

Portanto, constatou-se que a indústria da carcinicultura levou em conta unicamente os custos de mercado, em detrimento dos danos ambientais, ecológicos, culturais, sociais e à biodiversidade. Comunidades foram expulsas de suas atividades tradicionais. Índios estão em grave perigo de perder suas bases alimentar e cultural. Pescadores foram torturados, ameaçados de morte e impedidos de pescar. Agora é de extrema necessidade a imediata paralisação das atividades de produção de camarão em Áreas de Preservação Permanente (APP’s) e a recuperação dos setores degradados. E, definitivamente, levar em conta as denúncias e os anseios dos povos do mar, considerando seus motivos para preservar ecossistemas que sustentam suas comunidades e que irão garantir a qualidade de vida das futuras gerações.

JEOVAH MEIRELES (meireles@ufc.br)
Prof. Dr. do Depto. de Geografia
Universidade Federal do Ceará - UFC/Brasil.


17/08/2009

Projeto Ecomangue está de volta!


Oi pessoal, o Projeto Ecomangue depois de apresentar seu trabalho em Belém- Pa está de volta!!! Brevemente estaremos postando novos conteudos sobre o que está acontecendo no projeto!!!


Abraços cordiais!

Adryand Cesary

28/07/2009

XXI Semana Nacional de Oceanografia - UFPA

Em agosto de 2009 será realizada em Belém - PA, a XXI Semana Nacional de Oceanografia e possui como tema "A oceanografia em estuário, o grande encontro das águas", e o Projeto Ecomangue estará lá apresentando um trabalho com o nome: "Impactos de ações antrópicas no manguezal do Araçagy - Ilha de São Luís, Maranhão, Brasil". Este trabalho é de elevada impotância pois é o primeiro de muitos trabalhos que virão ser realizados pelo projeto, e sua caracteristica principal é abordar o nível de resíduos sólidos descartados na região originados pelo homem.

Agradecemos a todos que contribuiram para a realização deste trabalho, principalmente à Gisele Morais e Vanda Paixão.


Projeto Ecomangue - Ecologia e Conservação dos Manguezais do Maranhão

26/07/2009

Desastre marinho, o que está acontecendo com o planeta?


"Vespa do mar"


A cena atípica aconteceu num final de tarde em Oceanside, praia de San Diego, na Califórnia. Banhistas saíram amedrontados do mar. Mergulhadores profissionais nadaram fortemente para alcançar a areia - e estampavam no rosto assombro e preocupação. Surfistas recuaram de um momento para outro.
“Estava sobre a prancha quando percebi a movimentação das pessoas. Mergulhei e vi uma criatura marinha de quase dois metros de comprimento”, diz o americano John Guilmette. Ele se deparou, naquela abafada tarde, com uma lula gigante que pesa cerca de 45 quilos, pertence à espécie Humboldt e ataca o que encontra pela frente.

Segundo biólogos dos EUA, mais de duas mil Humboldt foram vistas na costa da Califórnia na semana passada, e a surpresa está no fato de que elas viviam, até então, nas profundezas do oceano Pacífico. Também nas Ilhas Balneares e em diversos pontos do litoral da Catalunha a cena se repetiu: a medusa caravela-portuguesa, cujo veneno é um dos mais letais que se conhece, apavorou os banhistas. Na costa norte da Austrália, os “monstros” também se fizeram presentes sob a forma da água-viva “vespa do mar”. Mas há mais: no Japão uma quantidade incalculável de águas-vivas gigantes se espalhou pela água. Cabe a questão: por que esse fenômeno? Biólogos marinhos são unânimes: ele é fruto do desequilíbrio ambiental.

“Estamos sendo invadidos por um número gigantesco de águas-vivas. São mais de 300 milhões delas e esse movimento migratório prova que o oceano está doente. Elas estão à procura de alimento”, diz o biólogo e oceanógrafo japonês Shinichi Eu, da Universidade de Hiroshima. A água-viva gigante que está atacando os pescadores no Estreito de Tsushima chega a medir dois
metros de diâmetro e pesa cerca de 200 quilos. A indústria pesqueira japonesa estima que o ataque causará um prejuízo de US$ 320 milhões.

Na mesma situação, e com alto risco de morte, estão os australianos que habitam áreas costeiras. Lá há o avanço da água-viva vespa do mar. Ela é linda. E agressiva. A ação de seu veneno é tão rápida e potente que a vítima não tem tempo de nadar para a praia, morre no mar. Quem mergulha na Grande Barreira de Corais australiana, um dos cartões-postais do país, sabe da existência de um pequenino “monstro” de 12 centímetros de comprimento chamado polvo de anéis azuis. Inversamente proporcional ao seu tamanho é a potência de seu veneno: aniquila 20 homens.

O fato é que a morte de muitos corais, devido à acidez do mar, quebrou a cadeia alimentar - desapareceram caranguejos e camarões e, com isso, o polvo de anéis azuis aproxima-se cada vez mais da costa para suprir suas necessidades. O governo da Austrália acaba de montar um plano de emergência tentando proteger os banhistas.

MIGRAÇÃO : A falta de nutrientes causada pela acidez dos oceanos obriga os animais a mudar de hábitat.

Na paradisíaca Península Ibérica o ataque em massa da caravela-portuguesa atraiu pesquisadores de toda a comunidade científica europeia. “O aquecimento global é a esfera maior. Em uma de suas camadas está o desequilíbrio ambiental”, diz o analista geográfico da Universidade de Alicante Jorge Olcina. “Fizemos diversos estudos e comprovamos que há uma
série de desequilíbrios no ecossistema do mar. Isso se traduz na proliferação de medusas que estão invadindo praias da Catalunha.” Foi o mesmo fenômeno que se deu na Califórnia. Milhares de lulas com mais de um metro de comprimento, dotadas de cortantes tentáculos, invadiram as águas de San Diego. “Todos ficaram assustados por nadar lado a lado com um monstro das profundezas.

Nossas máscaras foram envolvidas por tentáculos”, diz o biólogo marinho americano John Hyde. Ele acrescenta que essa espécie de lula é conhecida como “diabo vermelho” e que seu comportamento se alterou: “Sempre viveram em águas profundas da América Central, mas agora passaram a invadir o sul da Califórnia. Temos de prestar atenção a esses sinais da natureza.” Em outras palavras, o sinal dado por esse movimento migratório é o da falta de alimentos e do declínio no número de predadores naturais.

Fonte: Revista Isto é